segunda-feira, 28 de maio de 2012

Propagandas equivocadas em tempos equivocados

Sinal dos tempos modernos, as propagandas tem se mostrado, em sua grande maioria, cada vez menos inspiradas e humanas. Está certo que a propaganda sempre foi a alma do negócio, muito embora alguns poucos considerem, talvez com muita propriedade, que os negócios não tem alma, mas mesmo assim, não é por isso que se pode lançar mão de qualquer estratégia para tentar vender um produto. Seria importante manter um mínimo de dignidade, mesmo em se tratando apenas da voraz competição mercadológica. Há como fazer boas propagandas, pois muitos exemplos, principalmente do passado, demonstram claramente essa possibilidade. Contudo, atualmente, tem-se lançado mão apenas de recursos mais imediatistas, pouquíssimo inspirados e até de mau gosto, para tentar enredar e laçar o consumidor. As propagandas de carros são as que apresentam os mais baixos níveis de criatividade, versando sempre sobre os mesmos temas e usando as mesmas tomadas, dos veículos percorrendo livremente e a toda velocidade estradas longínquas, muito distantes dos grandes centros, onde os carros simplesmente não conseguem mais andar. Ainda sobre os carros, são batidíssimas as cenas em que o bonitão circula pelas ruas e é quase que aclamado pela plateia feminina, que fica maravilhada ao ver aquela obra de arte (o carro, claro) passar. Todos ao redor ficam extasiados diante daquela nova oitava maravilha do mundo (só até o próximo lançamento, daí a uma semana) a acelerar bem diante dos seus olhos perplexos. Cansado de ver esses reclames, como se dizia no passado, cada vez mais abundarem nos intervalos comerciais, resolvi elaborar essa postagem, colocando alguns exemplos de propagandas, ao meu ver equivocadas, que só poderiam mesmo ser veiculadas nos equivocados tempos em que estamos vivendo, de total inversão de prioridades e desrespeito aos verdadeiros sentimentos humanos. Tempos em que acumular e ostentar bens é o que mais importa, em que a pessoa só é aquilo que aparenta ser, em que o valor dos seres humanos são medidos apenas na escala material e da aparência física, e de nenhuma outra maneira mais. Essas propagandas podem até ser o reflexo dos dias que vivemos, mas, de qualquer maneira, ainda acredito que entre os os criadores e profissionais de marketing existam pessoas dotadas de razoável inteligência e sensibilidade, que sejam capazes de elaborar novas e criativas abordagens para a divulgação dos produtos e serviços disponíveis no mercado de consumo. Esses profissionais são tão bem remunerados e incensados pela mídia e pelo mercado, será que essas equivocadas peças e estratégias publicitárias que tem nos oferecido representam tudo aquilo que são capazes de criar? Abaixo, vocês podem ver alguns filmes comerciais recentíssimos, que julgo de extremo mau gosto, tendo em vista que dão ênfase e valorizam o egoísmo e a questão material em detrimento da humanidade, dos sentimentos e da capacidade que as pessoas tem em se destacar também por outras atitudes e dons muito mais nobres do que serem representadas apenas  por aquilo que compram e consomem. De todos os quatro filmes abaixo, o que mais me indignou é o comercial do Fiat Bravo, em que um sujeito literalmente começa a desaparecer, apenas por que o seu carro não é aquele top de linha. O cara simplesmente some e deixa de ser visto, somente porque não tem um carro recém lançado. Propagar uma distorção dessas é um desserviço enorme à nossa sociedade, que já não prima como deveria pela valorização das relações e dos sentimentos humanos. Para completar, exemplifico com mais algumas pérolas da babaquice comercial, como o último filme do Boticário, em que uma mulher despreza completamente o romântico pedido de desculpas do seu ex, informando-o fria e secamente que a fila anda. Fechando o ciclo de propagandas equivocadas, pincei ainda o filme da Renault, em que vários babacas choram copiosamente por não terem comprado um tal de Duster. Com tantos motivos melhores e mais nobres para chorar, um marmanjo vai se debulhar em lágrimas por causa de um carro? Francamente. Selecionei também o filme da Net, em que, diante da amiga cheia de si e de razão, uma atriz muito boa nos diverte com a tímida e envergonhada afirmação de que instalou uma banda larga que não é Net, mas é tipo Net. Como se isso fosse fazer sua amiga metida a besta mais feliz do que ela, que instalou uma banda larga wireless, mas com fio. Como ela mesmo afirma: Para que tanta pressa? E é essa pergunta que deixo no ar: Será que precisamos de todos esses bens de ponta e de última geração para sermos considerados seres humanos dignos, queridos e honrados? Espero sinceramente que não.    


segunda-feira, 14 de maio de 2012

Besteiras ilimitadas e infinitas por apenas R$ 0,25


Na guerra das superpoderosas empresas de telefonia móvel, que monopolizam esses serviços no Brasil, chegou-se a um consenso de que as ligações para as linhas da mesma operadora devem custar R$ 0,25, podendo o usuário conversar o dia inteiro, se quiser ou tiver assunto para tanto. Uma ou outra operadora pode eventualmente  baixar ainda mais essa tarifa, chegando até a R$ 0,21. No entanto, o presente post não se destina, de maneira nenhuma, a fazer propaganda dessas famigeradas empresas, que tanto exploram e, em muitos casos, tantas canseiras dão aos seus incautos usuários. Acontece que, com essa história de ligações com valores aparentemente baixos, a maioria da população já usa celulares com um monte de chips, cada um de uma operadora, para ir conversando com os amigos e parentes, de acordo com a procedência das linhas dos interlocutores. Daí, como as pessoas, via de regra, tem muitas coisas importantes para falar e para apresentar ao mundo, podemos ver cidadãos, principalmente em espaços públicos ou em transportes coletivos, conversando despreocupadamente por horas a fio, como se estivessem numa mesa de bar ou na sala da sua própria casa. É nessas horas, que as pessoas ao redor do falastrão são contempladas com toda a sorte de abobrinhas, desabafos e narrativas inapropriadas para lugares públicos. Algumas pessoas parecem perder a noção de que estão em espaços de uso comum. É claro que o mau uso do celular, dependendo do ambiente e do momento, por si só, já pode causar vários desconfortos aos que rodeiam os sem-noção que lançam mão dessa prática. Contudo, tem algumas figuras que vão bem além de apenas atender ou fazer uma ligação em momentos pouco aconselháveis para isso. Em ônibus lotados, em plena 7h00 da manhã, já presenciei conversas longas e detalhadas contendo relatos e assuntos pouco próprios para serem discutidos fora de quatro paredes, que dirá em um coletivo, transportando, naquele momento, cerca de 100 pessoas. É de chocar ou até de fazer rir, a facilidade com que algumas pessoas discutem assuntos espinhosos e íntimos na presença dos outros, como se não houvesse ninguém por perto. Da última vez que presenciei esse tipo de conversa, há uns três dias, uma mulher falava em alto e bom som sobre a sexualidade de toda a sua família, inclusive dela própria e do marido, sem nenhum pudor ou semancol. Chegou a falar que o fulano não pegaria a beltrana, nem mesmo se ela fosse a última mulher da Terra. Em outro momento, ao falar que apresentara uma outra mulher para o marido - a qual este, educadamente e com muita finesse, disse prontamente que pegava -, a narradora acrescentou que não iria preparar bolo para o outro comer. Como vocês podem perceber, as conversas giravam em torno de questões importantíssimas, que não poderiam de maneira nenhuma esperar para serem discutidas em outra oportunidade. Tinha que ser ali, naquele local, falando besteira ilimitada ou infinitamente, como preferirem. Também, pudera, por R$ 0,25, até injeção na testa. Não importa o que você fala, mas o quanto você fala. O negócio é trocar o chip e soltar o verbo. Nunca o brasileiro foi tão interativo e conectado. Pena que toda essa facilidade de conexão e interatividade não tem contribuído em nada para uma sociedade melhor, mais justa e cidadã.

sábado, 5 de maio de 2012

Massification Society - Revisited

Texto originalmente publicado em janeiro de 2010, mas
 repostado agora em virtude da atualidade do tema. 

Não sei se vocês perceberam, mas estamos vivendo num mundo em que as pessoas fazem quase tudo sempre igual e ao mesmo tempo.

Como miquinhos amestrados, estamos sendo, todos, orquestrados por poderosos grupos econômicos, empresas, meios de comunicações e detentores das mais modernas tecnologias.
Apesar de nos acharmos tão livres, leves e soltos, estamos, isto sim, sendo o tempo todo compelidos a agir desta ou daquela maneira, a usar esta ou aquela grife, a comprar este ou aquele carro, a assistir este ou aquele filme, a ouvir esta ou aquela música...

Os comportamentos têm cada vez mais sido ditados pela televisão e pela internet. As poderosas redes televisivas dão a pauta de como a sociedade vai se comportar naquele período.

Pensem um pouco sobre o cronograma de vida e atividades que nos impõem durante o ano:

Em janeiro, ao mesmo tempo que falam em férias escolares, dando sugestões de onde ocupar os pimpolhos, falam também sobre IPVA, IPTU e material escolar. Sempre a mesma lenga-lenga.

Depois vem o Carnaval, e só se fala nesse assunto, diuturnamente. Mostram inúmeros carros descendo para o litoral, porque ficou estabelecido, sabe Deus por quem, que Carnaval é para ser curtido na praia. Desfiles, fofocas sobre as rainhas de bateria e suas infantilidades. Quantos mililitros de silicone as musas colocaram. Quanto malharam. Com quem estão namorando. Haja saco. A música então, só samba-enredo de manhã até a noite. Um porrilhão de surdos e cuícas massacrando diretamente os nossos pobres tímpanos.

Após o Carnaval, o assunto passa a ser o início das aulas e o aumento do trânsito já caótico, devido às mamães que insistem em parar em fila dupla na frente dos colégios dos rebentos.
Fala-se também dos trotes aplicados aos calouros nas faculdades e das eventuais atrocidades que essa prática costuma trazer todos os anos.

Abril, mês da Semana Santa. E a mídia já começa a insuflar a população para as viagens ao interior. Assim como o Carnaval tem que ser curtido na praia, a Semana Santa deve ser aproveitada no interior. É outra regra que assola o nosso inconsciente coletivo.
Por que o cara não pode curtir o Carnaval no campo ou na montanha e a Semana Santa na praia? Onde está escrito que essa norma não pode ser subvertida? Eu, particularmente, todas as vezes em que inverti os roteiros pré-programados pela massificação onipresente, me dei extremamente bem, ficando em lugares tranquilos e menos badalados.

E assim passa o ano: Dias das mães, férias de julho, dias dos pais, dias das crianças... e, finalmente, o auge da mesmice e do comportamento clônico: Natal e Ano Novo. Aí é que o caldo entorna de vez. Graças a Deus, passamos por esse período recentemente e vai demorar um pouco para chegar novamente.

Aí sim, a micaiada amestrada se lambuza de tanto fazer a mesma coisa junta e igual, exatamente ao mesmo tempo.

Todo mundo se fodendo junto nos centros de compras, sejam shoppings chiquérrimos e metidos à besta, ou os centros populares de varejo, como a 25 de Março em São Paulo, ou o Sahara no Rio de Janeiro.

A desinteligência coletiva é tanta, que todo o ano, passado o Natal, as lojas ficam às moscas, com liquidações de até 70% de desconto. Mas isso, só alguns poucos pensantes e autênticos conseguem vislumbrar e aproveitar. Para eles, tiro o meu chapéu.

E também, e principalmente, nesse período, a ditadura comportamental assola a todos.
O Natal DEVE ser passado em família, em volta do peru e próximo à árvore de Natal.
O Ano Novo DEVE ser passado na praia, de branco, pulando sete ondinhas e comendo romã. Claro que depois de suportar as 10 horas de tráfego pesado e engarrafamento, para só então poder pisar na areia suja e contaminada.

Não sou contra a alegria, contra as viagens e muito menos contra as deliciosas reuniões familiares. Não sou contra dar presentes a quem amamos ou admiramos. Muito pelo contrário.
Sou contra, isso sim, o fato de sermos impingidos a fazer isso sempre que o patrão mandar.

Não sou contra a música. Por sinal, adoro música. Mas precisa ser a música que eu escolhi para curtir. Não aquela que toca à exaustão nas rádios e na TV.

Curto tudo que há de bom na vida, mas deve ser tudo aquilo que represente algo de bom para mim, para minha família e para a sociedade em geral. Não o que nos empurram goela abaixo durante o ano todo.

Acho que só a educação séria e comprometida das nossas crianças pode fazer com que, no futuro, passemos a ter mais cidadãos pensantes, atuantes e questionadores. Que não engulam, sem avaliar ou cogitar, todo o lixo e todas as regras de comportamento que nos são delicada e discretamente impostas.


Créditos:
A imagem de Homer Simpson, que ilustra este post, foi retirada do blog The Gong Show.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Mentes Compartimentadas e Fechadas

Parece que, cada vez mais, as mentes das pessoas estão se tornando compartimentadas e setorizadas, não sobrando mais espaços para a diversidade de pensamentos e atuações.  
Já há algumas décadas, mas cada vez mais, implantou-se a cultura urbana das tribos. Por essa linha de pensamento, ou você pertence a uma tribo ou pertence a outra, ou está no limbo. Não há espaço para interações e complementações. Não há diálogos entre os pretensos desiguais. E essa mentalidade, em casos agudos, tem levado até ao aumento exacerbado da violência, haja visto as ditas tribos que são extremistas na sua maneira de atuar, como os skin heads, torcidas organizadas  e grupos similares.
Porém, não acho que precisemos chegar a esses casos extremos, para detectarmos os vários tipos de problemas que a tribificação (Termo cuja invenção reputo ao espetacular músico André Abujamra) das pessoas pode causar ou ensejar.  
As tribos urbanas ou sociais, sejam de que natureza forem, sempre tenderão para a uniformização de pensamentos, ideias, proposições e, claro, da aparência física e da vestimenta dos seus membros.
Alguns poderão estar perguntando: E o que isso tem de mau? Procurarei explicar. Entendo que, toda vez que uma pessoa age levada por fatores externos, sejam quais forem, está deixando de ser ela mesma, e de pensar por si mesma. Nas tribos, sejam musicais, intelectuais, jovens ou qualquer que seja a sua motivação, os integrantes tendem a se comportar sempre dentro dos quadrados informalmente pré-determinados. Ao meu ver, parece que o campo de atuação e de discussão fica reduzido, de acordo com a finalidade à qual aquela tribo se propõe. Sempre que saio com parentes e amigos, indo a shows e espetáculos variados, noto a presença dessas tribos. É claro que nós, pobres mortais, não nos enquadramos em nenhuma delas, visto termos uma mente mais aberta e mais ampla, que aprecia um leque maior de possibilidades artísticas e musicais. Assim, não vemos problema algum em assistir em uma semana a um show dito brega, e na semana seguinte a outro show, completamente diferente, considerado mais pensante e cabeça pela opinião pública. Entendemos que as ideias, opiniões e propostas devam se complementar umas às outras, e jamais se compartimentarem.
Porém, por mais cool que os integrantes de determinadas facções sociais se sintam, acredito que eles percam muito por não praticar a interação espontânea, a qual eu e meu singelo grupo somos afeitos.
Tem sido recorrente o fato de estarmos em casas populares de São Paulo, como a rede SESC, as quais oferecem ótimas opções de shows e espetáculos a preços módicos, e sentirmos, de acordo com os shows, a total compartimentação da plateia. Já houve apresentações, que juntavam artistas mais velhos e mais novos, nas quais os públicos de ambos não interagiam. E, acabada a participação de um dos artistas, o respectivo público, se é que isso existe, imediatamente deixava o recinto, numa clara demonstração de sectarismo e falta de abertura para o que é supostamente diferente e novo.
Mas esses são apenas exemplos mais práticos, para ver se consigo me fazer entender. As tribos, em seus muitos meios de atuação, ao meu ver, se comportam assim. Incensam e valorizam apenas o pequeno nicho de pensamento e pessoas ao qual estão voltadas e das quais estão rodeadas. 
Sinceramente, não vejo vantagem alguma nessa postura. Acredito que a espontaneidade, a interação e o constante treino para o abandono de condutas rançosas e preconceituosas sejam um excelente caminho para a expansão das nossas mentes. A ideia central, para mim, deve ser sempre a de incluir, chamar, interagir. Qual a vantagem em se fechar em um microcosmo, em um grupo de personalidades congêneres, seja virtual, seja presencial, e, a partir daí balizar toda a sua vida e a suas posturas pessoais?   
Novamente lanço mão da sabedoria de André Abujamra, o qual eu já vi propor a ampla e total destribificação dos cérebros, lançando mão, com sua mente criativa e fervilhante, de outro neologismo sensacional, alem de realmente muito aplicável aos dias e comportamentos atuais.  
Destribifiquemo-nos pois. Tenho certeza de que nada perderemos com isso. Contatos com outras maneiras de pensar, com outras visões artísticas e políticas, com pessoas de diferentes faixas etárias, só irão nos enriquecer e integrar neste mundo tão compartimentado e setorizado em que vivemos. Ser cool é compartilhar, e não se fechar em casulos, achando-se diferente e melhor do que todos os outros mortais apenas por ostentar uma tatuagem, um piercing ou um corte de cabelo específico. Ser cool está na essência, e não na aparência das pessoas.

domingo, 22 de abril de 2012

Considerações de um diletante sobre o "Jornalismo Lado B"

Estava eu praticando minha caminhada de domingo, em meio às elucubrações das ideias e propostas lançadas e discutidas no curso "Jornalismo Lado B", do Instituto Barão de Itararé, quando nos meus fones de ouvido a letra de uma das músicas da Nação Zumbi trouxe uma frase precisa, que se encaixava no contexto e no cerne de toda essa discussão: "...Mais perto da essência, o sentido respira,  consumido no perfume que vem..." Aliás, com um pequeno aparte, recomendo a todos que ouçam sempre as músicas de Chico Science, Nação Zumbi e Mundo Livre S/A, pois todas são sempre muito boas para ficar pensando melhor e mais claro. Essas letras e músicas deveriam ser estudadas nas escolas, conforme a excelente sugestão do Azenha,  juntamente com muitos outros materiais audiovisuais criativos e alternativos, que podemos encontrar nas televisões públicas, na mídia alternativa e até mesmo no lado claro e positivo da Internet.
Mas, voltando à vaca fria, a música "Prato de Flores" traz em sua letra, conforme trecho sublinhado acima, a importância que existe em vivermos sempre, diante de qualquer aspecto de nossas vidas, perto da nossa essência, pois perto dela, nossos sentidos sempre estarão melhor amparados pela nossa verdade, pelos nossos princípios. Nada será mais belo ou verdadeiro do que qualquer trabalho que façamos balizados pelos nossos próprios e verdadeiros parâmetros interiores. Sempre que seguirmos verdades e imposições alheias em detrimento das nossas convicções soaremos falsos, fakes, ou seja, seremos cópias dos outros, ou então fantoches, jamais seremos nós mesmos. É claro que as boas influências, os grandes profissionais e tudo de bom e criativo que nos rodeia pode e deve ser utilizado e aproveitado por nós, mas apenas com o sentido de inspiração, sendo que sempre deveremos procurar acrescentar algo de novo e útil aos bons métodos e ideias alheias que porventura nos sirvam de inspiração. A cópia pela cópia dos padrões impostos como certos e válidos jamais trará nada de positivo ou interessante a qualquer meio de trabalho em que estejamos inseridos.
Como coloco no título deste post, sou apenas um diletante, um amador, que adora estar bem informado, mas não apenas isto, que procura no dia-a-dia separar o joio do trigo, principalmente em relação às posturas e ações políticas de nossos homens públicos, bem como daqueles, que por fazerem parte da mídia, são responsáveis por divulgar todos os acontecimentos e fatos, sejam políticos ou de que natureza forem.
Além disso, entendo que precisamos resgatar o sentido de coletividade e bem-estar geral em nossas vidas. De nada adiantará termos uma vida profissional extremamente bem sucedida se ela, em última análise, não puder oferecer uma contribuição concreta, útil e desinteressada à vida das pessoas que nos rodeiam.
Entendo que todos nós, jornalistas ou não, que nos propomos a interagir de alguma forma com o mundo, precisamos manter nessa relação o maior grau de honestidade e verdade possível, mesmo que a nossa verdade possa não condizer exatamente com os modismos e imposições midiáticas e propagandísticas do momento. Um posicionamento sincero e honesto, mesmo que não seja entendido imediatamente, será entendido por todos com o passar do tempo. Às vezes, o que é correto, justo e valoroso fica sucumbido pelos ditames da moda, pelas imposições do capital ou pela manifestação da vontade daqueles que detém o poder, seja político ou econômico. Porém, demorando ou não, a verdade sempre prevalecerá.
Por isso, volto ao ponto inicial, quem mantém a coerência interior e a firmeza de propósitos em todos os aspectos da sua vida, dificilmente cairá em contradições, sejam pessoais ou profissionais. Por outro lado, quem se deixa levar pelas tendências de mercado, pelos atalhos fáceis e pelas imposições alheias, corre o sério risco ser tido como incoerente e suscetível às influências daninhas e oportunistas.
É claro que, com  todas as novas tecnologias à disposição, alguns aspectos profissionais vão se alterando e evoluindo com o tempo, mas, como já foi dito algumas vezes nas palestras deste curso, o conteúdo e as ideias sempre continuarão sendo a base de todo o bom trabalho que qualquer profissional venha a criar ou executar. Acho, por fim, que para todos nós, o que deve nos mover para realizar trabalhos dignos e úteis à sociedade seja o legítimo interesse de que toda ela evolua conjunta e continuamente, aumentando a inclusão em todos os setores e diminuindo as diferenças e injustiças sociais que ainda campeiam por esse imenso Brasil.               

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Epitáfios grotescos

Segue abaixo uma série de inscrições para lápides, as quais poderiam ser utilizadas nos túmulos da grande maioria dos nossos homens públicos, políticos, banqueiros, empresários, latifundiários e proprietários rurais, entre muitos outros, que tantos e recorrentes danos causam à nossa sociedade. Há alguns casos que também se aplicam a muita gente oriunda da classe média, que, em larga escala, costuma se achar melhor  e mais digna do que as pessoas mais humildes.


Aqui jaz Grotesco, aquele que, em vida...


"Considerava-se realmente mais vivo do que os outros, sempre querendo levar vantagem em tudo, conforme os ditames da famigerada Lei de Gerson."

"Sempre se achou, por razões inexplicadas, superior às outras pessoas e merecedor de especial deferência e consideração de todos à sua volta."

"Sempre se portou em vida segundo a velha máxima: Farinha pouca, o meu pirão primeiro!"

"Achava que tudo girava à sua volta, bem como da sua família, pouco se lixando para se o resto do mundo se explodia."

"Jamais  respeitou o lado humano das pessoas, pautando todas as relações apenas pelas aparências e pela cosmética."

"Nunca em vida valorizou o ser em detrimento do ter."

"Jamais pautou-se pela honestidade, ombridade e lealdade, pois considerava esses valores como fora de moda e antiquados."

"Sempre fez na vida pública uma interminável extensão do que fazia na privada."

"Jamais se preocupou com questões ambientais, querendo sempre, isso sim, auferir todos os lucros possíveis sobre as terras, águas e riquezas naturais que considerava como suas."   

"Nunca se pautou pela preocupação com os mais humildes e desvalidos, tomando todas as atitudes sempre orientado pelos seus instintos corporativistas e de classe."

"Por achar-se dono do capital, sempre exigiu ser aquele que mais lucraria em qualquer transação ou situação nas quais investisse o seu famigerado dinheiro."

"Por seu poderio econômico, sempre fez uso da sua arrogância, explorando as pessoas e os subalternos em todas as situações nas quais havia essa possibilidade."

"Sempre distorceu os fatos e a história com o intuito de manter-se no poder a qualquer custo, valendo-se da ignorância dos mais fracos e humildes."

"Sempre trabalhou nas esferas em que pôde para manter o enorme fosso social brasileiro, sentindo-se sempre parte de uma classe hegemônica reduzida e superior."

"Sempre levou uma vida de indiferença em relação às questões sociais, passando a manifestar-se ferozmente e a declarar-se cansado apenas quando a violência chegou à sua porta ou aos seus entes queridos."

"Passava por cima dos desafetos e oponentes de maneira covarde e violenta, fazendo valer estupidamente, e à força, toda a sua vontade."
Deus os tenha em bom lugar!

segunda-feira, 19 de março de 2012

Faça você mesmo e faça agora

Como cidadãos, sabemos que os governos vem e vão, de forma cíclica, uns substituindo os outros. Períodos mais democráticos e de esquerda. Períodos mais autoritários e de direita. E por aí vai. É claro que todos nós temos as nossas preferências e tendências políticas. Que em algumas eleições nos sentimos vitoriosos e em outras, frustrados. Mas o que eu gostaria de dizer é que, melhor ou pior, nenhum governo ou instância da administração pública conseguirá ser perfeito, muito menos agradar a todos os eleitores. Sempre haverá pontos controversos em qualquer administração. Sempre haverá algum nível de tráfico de influência e de apadrinhamento de amigos e simpatizantes. Sem contar a nefasta obrigação, cada vez mais em voga na política, de ter que lotear os governos, dando a cada partido de apoio da base aliada o seu, em muitas vezes, nem tão merecido quinhão. Ou seja, a política do "é dando que se recebe" sempre paira os governos em maior ou menor grau. Por isso, cada vez mais chego à conclusão de que, em muitas situações, devemos fazer nós mesmos as mudanças e as intervenções necessárias para melhoria da nossa sofrida sociedade brasileira. Além disso, e até mais importante, cabe a nós fiscalizar e cuidar para que as políticas públicas caminhem da forma que precisam caminhar, ou seja, sempre em prol e totalmente em nome do povo, visando o seu bem-estar e os avanços sociais, principalmente nos setores críticos como saúde, educação, habitação, transporte e inclusão social. É muito importante que não sejamos omissos quando presenciamos aberrações e descasos sociais à nossa volta. Se há como denunciar absurdos e malfeitos, denunciemos. Se há como chamar a autoridade responsável na "chincha", chamemos. O que não podemos é ficar parados, e compactuar silenciosa e bovinamente, diante do descaso e da omissão de governantes e agentes do governo, sejam de que esfera forem. Além disso, precisamos com urgência ser mais cidadãos. Não podemos exigir do governo aquilo que não praticamos em nosso cotidiano. Se vivemos lançando mão do jeitinho brasileiro (e levando vantagem em tudo, certo?) a torto e a direito em nosso dia-a-dia, como podemos criticar os políticos e homens públicos que nós mesmos elegemos? Se desrespeitamos as vagas de estacionamento para idosos e deficientes na maior desfaçatez. Se avançamos sobre a faixa de pedestres e calçadas com os nossos possantes sem o menor cuidado ou respeito ao próximo. Se sempre que podemos, burlamos a ordem, e passamos na frente, de uma fila indiana para qualquer tipo de atendimento. Se tentamos levar qualquer fiscal na lábia, achando-nos super espertos por auferir qualquer tipo de vantagem à qual não teríamos direito dentro das normas estabelecidas. Em qualquer desses casos, e em muitos outros similares, com os quais nos defrontamos durante os nossos dias, se agimos na esperteza, então não temos direito de cobrar nada de quem está no poder. Se agimos assim, descompromissadamente, indiferentemente, alheios a todas as regras de convívio e respeito ao próximo, então não merecemos nada de bom. Precisamos, urgentemente, nos corrigir e tentar arrumar tudo o de errado e torto que acontece à nossa volta, a começar da nossa casa. Nós somos, no fundo de tudo, essencialmente aquilo que fazemos quando ninguém está nos vendo. É nesses momentos que o nosso verdadeiro caráter se manifesta em sua plenitude. E é aí que precisamos ser verdadeiros e decentes, inclusive conosco mesmos. Nós, os ditos cidadãos de bem, precisamos realmente fazer valer essa condição. Trabalhar na prática, sempre que possível, para minimizar desigualdades e injustiças. Atuar sempre que percebermos que podemos fazê-lo. Evitar a cômoda omissão dos alienados e conformados. Sempre que puder fazer algo de bom ou útil, faça-o, independente de recompensas e de atendimento unicamente aos interesses próprios.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Um cidadão X vivendo neste Mundo Y

Os tempos seguem cada vez mais céleres, mais automatizados, mais conectados e cada vez menos presenciais, menos afetivos e menos humanos.

Hoje, para tudo há padrão. Padrão de roupa, padrão de cabelo, padrão estético, padrão de automóveis, etc. O mercado, a propaganda e as poderosas empresas envidam um esforço orquestrado e programado para padronizar uma série de bens, comportamentos e aspectos visuais da aparência, alçando-os, para o incauto público, à condição de coisas mais importantes da vida moderna.

Alia-se a agilidade da informação “sem fricção” com as ações maciças e coordenadas de marketing, tentando transformar o Mundo em uma coisa só. Seja em que local do Globo for, as pessoas acabam tendo os mesmos sonhos de consumo e as mesmas tendências de comportamento.

Não está sobrando tempo ou espaço para a autenticidade regional. Todos estão caminhando, quase sem pensar, para as mesmas práticas e os mesmos padrões comportamentais. Aliás, parece que está ficando cada vez mais deselegante questionar, ou ter opinião diferente sobre qualquer coisa na sociedade moderna globalizada. Há padrões veladamente impostos como certos, que precisam ser seguidos, sob pena, para os eventuais rebeldes, de ficar de fora daquilo que se convencionou entender na sociedade como padrão aceitável de postura, seja física, seja psíquica. São esses padrões comportamentais empresariais impostos goela abaixo dos funcionários, que dão origem às muitas aberrações no relacionamento empresa/cliente, como, por exemplo, o abusivo e onipresente uso do gerundismo pelos robotizados e mal preparados atendentes de Call Center das grandes e modernas empresas. Às vezes, temos a impressão de que os funcionários modernos, por ordem das suas chefias, precisam apenas estar nos seus postos de trabalho uniformizados e bem alinhados, sem a necessidade de realmente prestar um serviço de qualidade aos seus clientes. Basta apenas parecer bonitinho e eficiente, não importando que na realidade seja ordinário e ineficaz. Em muitos casos substitui-se completamente - a meu ver, não sem muitos prejuízos - a eficiência e a capacidade profissional de uma pessoa pela aparência padronizada e asséptica de outro funcionário.

As novas tecnologias podem trazer realmente muitas coisas boas a todos nós. Porém, todas as facilidades tecnológicas de nada adiantarão se, paralelamente a elas, não houver um investimento maior no crescimento das pessoas como seres humanos e cidadãos. Por maior que seja a evolução, entendo que jamais poderemos prescindir de um toque de humanidade em nossas relações, sejam elas de que natureza forem. Nada substitui um cumprimento cordial, um sorriso, uma postura de real interesse naquilo que a outra pessoa (cliente/cidadão/contribuinte) esteja querendo, precisando ou perguntando.

Essa desumanização da vida real cotidiana vem crescendo a olhos vistos. Principalmente nos grandes centros urbanos, não há mais espaço para práticas corteses e interação interpessoal. As pessoas andam pelas ruas e lugares públicos como autômatos, sem qualquer atenção ou respeito para com todos aqueles que circunstancialmente estejam por perto. Parece que tacitamente se convencionou que, atualmente, para haver interação entre humanos, ela precisa necessariamente acontecer de maneira virtual, por vias eletrônicas. Parece que não é mais cabível, em áreas e espaços públicos, haver entrosamento espontâneo e físico, olho no olho, tête-à-tête, com palavras cordiais entre duas ou mais pessoas. As pessoas estão “conectadas e ocupadas” demais para perder tempo com os cidadãos que perambulam ao seu lado. Sem contar que a vida anda muito perigosa, e é melhor não falar pessoalmente com estranhos, só pela Internet.

Observo pelas ruas, que está sendo cada vez mais comum as pessoas se esbarrarem ou trombarem, sem que haja qualquer pedido de desculpa ou iniciativa elegante de qualquer uma delas. Simplesmente se chocam ou quase se chocam, sem que uma olhe diretamente para outra ou lhe dirija a palavra.

Talvez eu esteja errado, e tudo aquilo que escrevi acima sejam apenas lamentações de um homem datado como pertencente à geração X, que viveu ¾ da sua vida no século XX, e que não consegue se adaptar às novas tendências e maneiras de viver deste século XXI, completamente dominado e gerido pela geração Y e subsequentes. Talvez eu esteja errado ou nostálgico demais. Sonhando em viver numa sociedade mais humana e solidária em tempos tão frios e de relações tão estranhas e distantes. Talvez não haja mais tempo e espaço para se ter respeito e preocupação com o próximo, e sim apenas para com o nosso próprio umbigo e com os nossos bens materiais de última geração. Os parâmetros de felicidade parecem ter mudado muito neste Mundo. Fui eu quem não mudou e ficou para trás, atropelado por essa forma de modernidade que nunca desejei.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Simphrônio vai ao inferno

Post originalmente publicado em 2009, o qual
repostamos agora, uma vez que o tema
ainda conserva alguma atualidade.

Simphrônio caminhava tranquilamente pelo viaduto do Chá no seu horário de almoço. Absorto em sua faina diária, o contabilista usava um terno alinhado, a sua indefectível gravata e o chapéu branco tipo palheta. Bigodinho negro e muito fino, como convinha a um cavalheiro. Naquele ano de 1929, os maiores ruídos que haviam por ali eram os dos bondes e os dos passos de alguns transeuntes apressados. Também ele tinha alguma pressa, pois já eram 12h50 em seu relógio de bolso. Precisava estar no escritório, na Praça do Patriarca, exatamente às 13h00, quando iniciaria o segundo turno de trabalho, mas ainda tinha que passar na pharmacia.
Foi então que, num átimo, ao passar por baixo de uma escada em meio ao viaduto, utilizada pelos funcionários da Companhia de eletricidade, Simphrônio viu-se imediatamente em outra dimensão. O ar mudou, tornou-se espesso, o barulho era ensurdecedor. Buzinas, gritos, muita gente apressada, vendedores ambulantes aos montes.
Perplexo e paralisado, nosso herói viu o seu relógio e a sua carteira serem roubados por punguistas, menos de dois minutos depois da sua "chegada" ao local. Não sabia se estava em outro país ou em outro planeta, apesar do lugar ainda conservar alguma familiaridade para ele.
Simphrônio estava atônito. As pessoas pareciam malucas. Muitas delas falavam e gesticulavam sozinhas, com uma caixinha nas mãos. Parecia que chegara a um mundo de lunáticos. As mulheres usavam roupas leves e algumas estavam seminuas, pernas à mostra, barrigas à mostra. Ele não estava entendendo nada. Aos poucos, conseguia distinguir alguns prédios que ainda mantinham as mesmas características de alguns minutos atrás, quando tudo era normal em sua pacata vida de trabalhador e homem de família.
Arguto que era, Simphrônio percebera que estava em São Paulo, só não conseguia discernir se estava acordado ou sonhando, ou melhor, tendo um pesadelo.
Continuava se espantando com os tipos que via à sua frente. Muitos tinham os braços, pernas e pescoços desenhados, além de apresentarem pedacinhos de metal pelas orelhas, narizes e bocas. Os cabelos eram de cores variadas e cortes inimagináveis no seu tempo. Em muitos casos não diferenciava homens de mulheres e vice-versa. Teria sido São Paulo invadida por uma tribo de selvagens?
Ele, por sua vez, por estar no Viaduto do Chá, talvez estivesse sendo confundido com os muitos artistas de rua que passam os dias ali, vestidos com roupas de época, trabalhando como estátuas vivas. Por isso, e também devido à correria desenfreada e à indiferença generalizada dos cidadãos paulistanos modernos, ninguém notava a sua curiosa presença.
Esperto, Simphrônio aproximou-se de uma banca de jornais e, depois de quase cair de costas com o número de mulheres nuas em diversas revistas, conseguiu achar um jornal. Avidamente, verificou a data em que estavam. Oito de julho de 2009. Estupefato, concluiu que viajara no tempo exatamente 80 anos!
Logo em seguida, algumas moças bonitas o pegaram pelo braço e o convidaram para momentos de prazer. Cavalheiro que era, agradeceu a boa vontade delas e deixou para outra oportunidade. Eram 13h30. Seu Astolfo, o rígido patrão, não iria perdoar aquele atraso inimaginável para os padrões do escritório em que trabalhava.
Ao tentar atravessar o viaduto, quase morreu atropelado por carros, motos e ônibus. Eram tantos veículos, tanta fumaça, que não conseguia entender como era possível a convivência de seres humanos (Se é que ainda eram humanos) em meio a todo aquele caos.
Observador, notou que as pessoas falavam muito mais sozinhas, nas caixinhas, do que entre si. Outras levavam umas coisinhas nos ouvidos, que ele não conseguia entender para que serviam. Muitas outras paravam diante de coisas ou pessoas e ficavam apontando as mesmas caixinhas em suas direções. Seriam aquelas caixinhas algum tipo de arma ? Ele se perguntava. Aliás, perguntas sem respostas era tudo o que havia em sua cabeça.
Inteligente, pensou consigo mesmo: Vou tentar chegar ao escritório. Seu Astolfo deve estar espumando de raiva. Caminhou alguns metros. Viu um estabelecimento que, apesar das diferenças, se assemelhava com a pharmacia. Mas deixou para outro dia, se houvesse outro dia para ele. Ao entrar no velho edifício em que trabalhava, repentinamente sentiu a atmosfera mudar ao seu redor. Que alívio, voltara a sua doce São Paulo. Deixara para trás aquele inferno de Dante. Estava tão feliz, que seria capaz de beijar a careca de Seu Astolfo. Ele que descontasse as horas que achasse que devia. Estava em casa de novo, e imensamente feliz.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Message in a virtual bottle

Às vezes me perguntam para que serve um blog. Sinceramente, cada vez mais tenho dificuldades em responder a essa questão. São milhões de blogs vagando pelo cyber-espaço, e outros milhares sendo criados todos os dias. Algumas das minhas respostas recorrentes normalmente abordam a possibilidade de publicar nossos textos e ideias, ou a facilidade de armazenamento das nossas experiências de vida, entre outras tantas evasivas.
Contudo, é mesmo de se perguntar: Pra que serve um blog?
A única coisa mais palpável que me vem à mente é o fato de que daqui a cem, duzentos anos, nossos escritos poderão ser eventualmente estudados pelos arqueólogos e antropólogos do futuro. Se tem uma coisa da qual nossos descendentes não poderão reclamar será da falta de informações sobre como era absurda e cheia de inconformidades a vida humana no Planeta Terra no início do terceiro milênio.
Os blogs serão fósseis digitais ao alcance de quem tenha paciência para dissecá-los e tentar decifrá-los.
Do modo com a tecnologia evolui vertiginosamente, talvez bem antes, ainda na próxima década, os blogs já sejam tidos como dinossauros digitais.
O fato concreto é que, talvez como uma garrafa com o pedido de socorro lançada ao info-mar, a utilidade do blog esteja nas observações, críticas e discussões que fazemos hoje, sobre acontecimentos e comportamentos desta era, os quais poderão ser estudados e quiçá melhor entendidos pelos nossos irmãos do futuro. Quem sabe se, até lá, a humanidade já não terá atingido um determinado grau de consciência e esclarecimento que permita aos homens que virão se espantar com coisas e pensamentos produzidos nestes tempos.
E tomara que vivam, nesse futuro distante, de maneira muito mais civilizada, num tempo em que já tenham resolvido as questões de preconceito, miséria, fome, corrupção, diferenças sociais, diferenças étnicas, diferenças religiosas, diferenças ideológicas, entre tantos outros graves problemas enfrentados neste mundo atual.
Acho que essa talvez seja a única resposta factível para a manutenção de um blog nos dias atuais. O envio de mensagens póstumas aos nossos irmãos do futuro.
Fora isso, para pouco serve um blog pouco ou nada lido, com o acompanhamento apenas de uma meia dúzia de amigos sinceros e de todas as horas.
Para mim, blogs que, por mais que tentem, não conseguem produzir discussões, que não atingem um determinado número mínimo de leitores, que provocam pouquíssima ressonância, como é o caso deste, estão fadados a serem diários eletrônicos, passíveis de serem compilados para futuras biografias feitas pela família, no máximo.
Depois de toda essa reflexão, tenho a resposta, um blog é uma mensagem na garrafa, uma cápsula do tempo, que poderá ser descoberta e aberta daqui a séculos ou milênios.
Não deixa de ser uma ferramenta moderna, voltada para o futuro, sob certo ponto de vista.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

A cidade dos carros

Em São Paulo, hoje, tudo é voltado e (mal) planejado para as necessidades dos automóveis. Parece que as pessoas, em sua imensa maioria, desaprenderam a caminhar ou a se deslocar de outras maneiras. Mesmo para trajetos de 500m, as pessoas optam pelo uso do automóvel, talvez até pelo suposto status que o veículo particular possa conferir ao cidadão. Há uma enorme preocupação da prefeitura em cuidar das pistas de rolagem, mas nenhuma preocupação em manter as calçadas minimamente trafegáveis para os pedestres e cadeirantes. É como se as calçadas fossem terra de ninguém; como se nenhum incauto fosse ousar caminhar a pé por elas. Acontece que há milhares de paulistanos que, por consciência ou por falta de opção, precisam caminhar pelas calçadas. E como é duro ser pedestre em Sampa. Em muitos casos tornam-se praticamente invisíveis, pois os motoristas jogam seus carros sobre eles sem a menor cerimônia, dando ainda a entender que eles, pedestres, os estão atrapalhando em suas manobras, principalmente nas entradas e saídas de garagens. É como se a calçada deixasse de se ser sobretudo o caminho reservado aos pedestres para ser, prioritariamente, entrada e saída de veículos.
Além disso, os níveis de grotesquice dos motoristas tem passado de todo e qualquer limite aceitável. Eles metem as mãos nas buzinas a qualquer pretexto, a qualquer hora, não importando se a zona é residencial, ou se há crianças e idosos por perto. É a barbárie. E na maioria dos casos, as grotesquices são produzidas por pessoas que se auto intitulam como sendo de bem. Parece haver muita gente que acha que educação, respeito e boas maneiras não precisam se estender ao trânsito motorizado.
Agora, com a fiscalização pegando pesado e multando em relação ao respeito às faixas de pedestres, talvez os grotescos motoristas paulistanos sejam compelidos por força de lei a respeitarem um pouquinho mais esses seres que se arvoram a cruzar o seu caminho, também chamados de transeuntes. Onde já se viu? Gente comum querendo transitar a pé em São Paulo!?! Nessa cidade só se anda motorizado, com uma verdadeira armadura sobre rodas!
Se você não tem carro porque não pode ou porque não gosta de dirigir, azar o seu! Aqui não é o seu lugar!
As preocupações dos governantes com o transporte público estão muito aquém de onde deveriam estar. Os investimentos em transportes integrados, que possibilitem aos cidadãos se moverem de maneira rápida e digna em São Paulo são infinitamente menores do que efetivamente essa cidade precisaria. E olhe que as passagens são caras. Pagamos caro para andar como sardinhas em lata, em ônibus e trens cujos horários e frequência de partidas sempre estão longe de serem os ideais, gerando a superlotação cotidiana.
Preocupações do poder público com os ciclistas, praticamente não existem. Pouco se investe em ciclovias e em reais incentivos para que a população adotasse de maneira segura e confortável o uso das bicicletas em nossas ruas e avenidas.
Por enquanto, tudo se resume aos carros, tudo se destina aos carros. Eles são os donos das ruas e dos corações e mentes da maioria das pessoas, inclusive daquelas que detém o poder e que, se quisessem, poderiam começar a mudar essa situação.
Enquanto isso, ser pedestre, usuário de transporte coletivo, motociclista ou ciclista em São Paulo são atividades de alto risco, para as quais não há garantias ou preocupações por parte de ninguém.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Robozinho valente volta ao inferno de Dante

Uma vez reiniciada - dois anos após a primeira incursão - a epopeia do flutuador (robozinho valente) da Globo nas imundas águas do Rio Tietê, achei interessante e oportuno republicar este post daquela época.

Todos os dias, o robozinho - guiado pelo seu quixotesco e estoico guardião, o cavaleiro navegante Dan Robson - é acompanhado pela equipe de reportagem da Globo.

Durante as transmissões, são recorrentes as esperadas e padronizadas caras e bocas de espanto dos apresentadores dos telejornais. Como se a situação horripilante do Rio Tietê pudesse ser novidade, mesmo para o mais desligado paulistano.

A única conclusão possível, diante dessa segunda e tresloucada jornada, é que a situação é igual, se não pior do que em 2009, e que nada foi efetivamente feito, por nenhuma instância, para reverter o quadro dantesco do Rio Tietê.

Foi iniciada nesta terça-feira, 01/09/09, com pompa, circunstância, transmissões e relatos ao vivo, uma jornada no mínimo insólita. A Globo está patrocinando a viagem de um flutuador, que mais parece um robozinho ou um satélite, o qual terá a ingrata missão de percorrer 500 Km do Rio Tietê, coletando informações, dados e imagens sobre a vida (?) e a quantidade de oxigênio de suas águas imundas, espessas e pardacentas.
São públicos e notórios os altíssimos níveis de poluição do Rio Tietê, pelo menos na parte que corta a grande São Paulo, causados principalmente pelos esgotos e dejetos industriais lançados sem o menor cuidado nas suas águas.

Parafraseando jornadas famosas, concluímos que essa tresloucada expedição será uma autêntica viagem ao fundo da merda.

Nos primeiros dias, o robozinho irá navegar por águas mais limpas, próximas da nascente do Tietê. O bicho vai pegar na medida em que ele for se aproximando da capital. Nem sei se alguns trechos ainda são navegáveis, dada a densidade de suas águas marrons. Talvez o aparato venha a encalhar em alguns pontos das águas embosteadas do rio.
O que me espanta é o ar de desbravadores do rio que os apresentadores dos telejornais da emissora têm adotado. O entusiasmo e a alegria com que noticiam os avanços do projeto, que, ao menos em tese terá duração de um mês. Isso, se o sofisticado equipamento não vier a se desintegrar nas ácidas águas em que irá navegar.
Outro ponto em que os globais dão muita ênfase é o envio de imagens a serem coletadas durante a empreitada. Não consigo deixar de imaginar as belas imagens a serem fotografadas, e transmitidas em tempo real, no período crítico, quando o flutuador estiver navegando quilômetros e quilômetros literalmente na merda.
Quanto à vida nesse trecho do rio, só vejo a possibilidade de encontrarem uma única espécie, cuja resistência é descomunal, são os famosos peixes de origem nipônica, os toroços. Esses deverão ser muito fotografados pelo heroico robozinho.
É importante lembrar, que a engenhoca será sempre pajeada por um atleta do remo, a quem eu sinceramente desejo toda a sorte do mundo, tendo em vista os caminhos pútridos nos quais irá se aventurar.
No final das contas, ao fim da penosa viagem, teremos um amplo painel dos níveis de merda existentes no Rio Tietê. Nunca nenhuma iniciativa foi tão desbravadora e corajosa. Durante anos a fio esperamos uma medida como essa, que pudesse comprovar cientificamente aquilo que os olhos e narizes dos paulistanos já conhecem de longe.

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